terça-feira, 29 de dezembro de 2009

"ASPAS"

VAIS ENCONTRAR O MUNDO (...) CORAGEM PARA A LUTA.

Raul Pompéia, O Ateneu.

EM TEMPOS DE APAGÃO...

Mais uma vez começa a temporada nacional de prevenção à falta de luz!
Talvez a produção em grande escala de lampiões e lanternas seja a solução mais adequada para um país que ostenta grandeza administrativa em meio a sua pobreza de planejamento administrativo.
O caos provocado pelo apagão mais recente só vem a pôr novamente em evidência os problemas que haviam sido postos de lado. De quem será a culpa? Da natureza que não cooperou com sua “boa vontade”? Das condições climáticas e planetárias que influenciaram de maneira infame para o grande blackout? Talvez das condições físicas da maior hidrelétrica da América Latina? Eis o grande dilema...
Todos procuram seu culpado preferido. Esta sempre foi a ânsia humana, encontrar uma justificativa plausível para tudo.


http://mesotropo.blogspot.com
Transfere o teu abraço para o meu peito
O teu grito livre para o meu grito oprimido.
O que tu faz de bom para o meu mal feito
O teu olhar inocente para o meu olha bandido.

Transfere o teu sorriso para o meu lamento
Tua felicidade para a minha tristeza.
Teu bem comum para o meu sofrimento
Tua coragem para as minhas fraquezas.

Transfere o teu cafezinho para o meu leite
Teu queijo e manteiga para o meu pão.
O teu creme colorido par o meu sorvete
Tuas panelas vazias para o meu fogão.

Transfere teu amor para o meu coração
O cheiro do teu suor para o meu corpo.
Tua alegria positiva para a minha solidão
Transfere mais, porque isso é tão pouco!

Transfere o teu sabonete para o meu banheiro
Tua vida amorosa para a minha que não ama.
O teu fofinho e perfumado travesseiro
Para o lado que está vazio na minha cama.

José Alfredo dos Santos (Zeca)

OUVIR ESTRELAS - INTERTEXTOS

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! " E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?

" E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Olavo Bilac

Ora, direis, ouvir estrelas! Vejo
Que estás beirando a maluquice extrema.
No entanto o certo é que não perco o ensejo
De ouvi-las nos programas de cinema.

Não perco fita; e dir-vos-ei sem pejo
Que mais eu gozo se escabroso é o tema.
Uma boca de estrela dando beijo
É, meu amigo, assunto pra um poema.

Direis agora: — Mas enfim, meu caro,
As estrelas que dizem? que sentido
Têm suas frases de sabor tão raro?

— Amigo, aprende inglês para entendê-las,
Pois só sabendo inglês se tem ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

Bastos Tigre

UVI STRELLA

Che scuitá strella, né meia strella!
Vucê stá maluco! e io ti diró intanto,
Chi p'ra iscuitalas moltas veiz livanto,
I vô dá una spiada na gianella.

I passo as notte acunversáno co'ella,
Inguanto che as otra lá d'un cantoStó mi spiano.
I o sol come un briglianto
Nasce. Oglio p'ru céu: — Cadê strella?!

Direis intó: — Ó migno inlustre amigo!
O chi é chi as strellas ti dizia
Quano illas viéro acunversá contigo?

E io ti diró: — Studi p'ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
É capaiz de intendê istas strella.

Juó Bananére

"ASPAS"

A VIDA É UMA PIPOCA QUENTE. O SAL FICA POR SUA CONTA.

Xida Dantas

ÁGUA E SAL

No peito mágoa, água e sal.
Boca vazia aflora a mente.
Oceano censura, rasga a palavra fere não mata o desejo.
Lampejo de dor, gota rasa, joga fora a dor de amar.
Sussurra solidão à maré, um coração feito de papel,
Naufraga em redenção à sorte, perde a fé.
Espuma espessa embala sonhos, é amor outra vez!
Chega e foge aos olhos, adentra o mar.
Carrega consigo sabor da vida.
Renova e inventa o desejo de amar.
Desvela em rima oceano a poesia.
No peito amor, água e sal.
Ellen Ogath

TRANSFORMAÇÃO

Seres noturnos me ensinaram cedo
Cultivar, como virtude, a avareza;
A sentir, a todo momento, medo;
A aceitar, covardemente, a tristeza.

“Seja avaro, meu jovem, com a vida.
Guarde esse tesouro que é só seu.
Nada entregue aos homens homicidas;
Não ouça os enganos de Prometeu”.

“Os homens mostram à luz modos vários.
No entanto, em essência, são todos maus.
É preciso caminhar solitário.
Tenha medo, que o medo é vital”.

“Mais vale ser triste que ser alegre,
Porque toda alegria é fugaz.
Da turva fonte da Tristeza bebe,
Pois só ela é que nos satisfaz”.

Decorei piamente os ensinamentos
Que ditavam pregadores do além.
Neles eu pus todo meu pensamento;
Deles meu peito se tornou refém.

Assim vi, no meu pobre o corpo, o sangue
Se tornar cada vez mais rarefeito.
E meu corpo se sublimava, exangue,
Em puros, altos ideais desfeito.

Como um leão que escravo não é mais
Rebelei-me contra a dor opressora.
Destruí os malditos ideais
Com suas mentiras transfiguradoras.

Agora quero unir-me à natureza.
Agora quero dançar de prazer.
E canto, louvo, proclamo a Beleza!
E proclamo, louvo e amo Você!


Mefistófeles Hades
Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente,

Y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
E me ouves de longe e minha voz não te toca.

Parece que los ojos se te hubieran volado
Parece que os olhos tivessem voado de ti

Y parece que un beso te cerrara la boca.
E parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
Como todas as coisas estão cheias de minha alma

Emerges de las cosas, llena del alma mía.
Emerge das coisas, cheia de minha alma.


Mariposa del sueño, te pareces a mi alma,
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,

Y te pareces a la palabra melancolía.
E te pareces com a palavra melancolia.


Me gustas cuando callas y estás como distante.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.

Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
E estás como que queixando-te, borboleta em arrulho.

Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
E me ouves de longe e minha voz não te alcança:

Déjame que me calle con el silencio tuyo.
Deixa que me cale com o teu silêncio.

Déjame que te hable también con tu silencio
Deixa que tambem te fale com o teu silêncio

Claro como una lámpara, simple como un anillo.
Claro como uma lâmpada, simples como um anel.

Eres como la noche, callada y constelada.
És como a noite, calada e constelada.


Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.

Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.

Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Uma palavra então, um sorriso bastam.

Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.



Pablo Neruda
20 poemas de amor e uma canção desesperada, 1980.

Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Raimundo Correia